Campanha de proteção de mãos: o novo objetivo de Joel Rosa

 em Sipat destaques

Dedicação e felicidade são as palavras que definem Joel Rosa de Moura de 48 anos. O colaborador perdeu o braço em 2001 e agora dedica-se pela campanha de proteção de mãos, promovendo a conscientização de como as mãos são importantes. Confira sua trajetória e se emocione com sua superação.

O acidente

“Minha vida era perfeita, profissionalmente era realizado, estava vivendo o auge da minha carreira, me sentia capaz em tudo que fazia. Mas no momento do acidente eu senti que tudo tinha estagnado, foi um momento de calvário.

Eu era ferramenteiro de manutenção, a minha obrigação era fazer a manutenção no setor de ferramentaria. No dia do acidente 15/05/2001 quando o relógio marcou 12:00 eu fui chamado para ir na estamparia.

Chegando na estamparia havia uma máquina com a ferramenta presa, foi então que um supervisor (não o meu supervisor, pois este estava almoçando) me deu uma ordem de fazer a manutenção na máquina.

Eu relutei em fazer, porque não tinha ordem de serviço e sempre tinha que ter uma ordem por escrito, porém os meus 3 “nãos” não foram suficientes.

A ferramenta foi fixada na máquina suja, por isso ela não estava extraindo as outras peças. Desliguei a máquina, só que ao mesmo tempo, outro companheiro desligou o ar desse equipamento para engraxar a máquina do lado. Por conta da falta de ar, depois de 10 minutos ela caiu, e meu braço foi esmagado por 2 toneladas.

Meus colegas não sabiam me tirar de lá, alguns até iam para o banheiro vomitar por conta do sangue. Eu fiquei uns 15 minutos preso e enquanto isso consegui dar 3 ordens: 1ºordem traga a ambulância; 2º ordem avisa o hospital que vai chegar um acidentado; 3º venha alguém aqui e me ajude para eu não desmaiar quando for solto. Apesar das ordens, eu permanecia enroscado.

Foi então que chegou meu salvador: o eletricista. Ele inverteu o motor da máquina, mas ela não levantou porque estava com o fusível queimado. Ele pegou o fuzil de outra máquina e conseguiu me liberar.

O Marcelo (colega de trabalho) segurou meu braço, outro jogou uma blusa e entrei na ambulância. Em nenhum momento eu tive dor, meu corpo não queria morrer, eu pensava em viver.

A cirurgia começou por volta da 13h30, a anestesia era apenas local então fiquei acordado por todo tempo, cantava louvores e até conversava com o médico.

Ele me elogiava, dizia que nunca viu alguém tão forte. Eu olhava para o meu braço e via que não tinha porque ficar triste, eu estava vivo, bola para frente.

Às 15h00 já estava no quarto, preocupado em como iriam contar para a minha esposa, ela estava grávida de 6 meses. Também tinha um filho de 2 anos, pensava muito nele.

A recuperação em casa

Ao ir para casa, me vi muito dependente da minha mulher, era ela quem abotoava minha camisa, amarrava meu cadarço e todas as outras coisas que eu precisava. Fiquei com ela até 2005, tivemos uma filha nesse período, mas ela não aguentou, não aceitava a perda do braço e terminamos.

Eu segui minha vida e não podia obrigar ela a aceitar minha amputação. Eu não vou punir ela por ela não gostar mais de mim.

De 2001 até 2005  fiquei de molho, recebia o salário da empresa e do INSS. A empresa me forneceu atendimento psicológico e cursos de informática, o INSS me deu uma prótese.

De 2005 até 2006 fiquei no almoxarifado, na mesma empresa que me acidentei. Mas depois de um ano, me demitiram, disseram que eu não era apto para aquela função. Eu perdi o sentido porque a empresa não me queria mais.

E então começou meu luto, que durou 10 anos.
Durante esses 10 anos fiquei encostado pelo INSS por auxílio doença e conheci outra mulher. Eu não queria me relacionar, porque a minha primeira esposa já tinha me recusado por conta da amputação, mas ela disse que ia cuidar de mim até eu ficar velhinho, então ficamos juntos.

Ela trabalhava e eu cuidava das crianças.

Depois de um tempo ela foi para Natal com a nossa filha, mas eu quis ficar em Viamão, pois tinha meus outros 3 filhos ali para criar.

Superação e o início na campanha de proteção de mãos

Conheci o relato de Flávio Peralta e achei muito legal, ele mostrava que ainda tinha muita vida, então eu senti essa vontade de mostrar o valor dos membros para cada indivíduo, pois quando você perde, você pensa, porque eu não dei valor antes?

A campanha de proteção de  mãos é um dos caminhos que encontrei para promover essa conscientização, mostrar o quanto precisamos das mãos para desempenhar nossas atividades.

Para isso ser possível, comecei em 2016 o curso de técnico de segurança do trabalho no SENAC. Vi que eu podia ser útil, que eu podia ajudar outras pessoas. Meus filhos também me motivaram, eles nunca viram eu trabalhar, e eu queria mostrar para eles e para os outros que eu tenho capacidade.

Por conta da amputação busquei mais conhecimento, venci a timidez, hoje eu procuro estudar as leis, para as empresas seguirem e acidentes não acontecerem com outras pessoas.

Minha vida é me dedicar para viver num mundo sem acidentes. Quero me dedicar especialmente na campanha de proteção de  mãos. Eu sou uma pessoa especial para o mundo, me sinto adaptado a mostrar para o mundo que todos podem ser úteis, que se não tiver luta, não tem vitória.

Atualmente dirijo carro e apesar da carteira de moto ter sido retirada, consigo dirigir “bis”, que não tem marchas. Gosto muito de ler, é meu hobby. Faço hidroginástica também, busco pela minha qualidade de vida.

Sonho em viajar muito, sempre trabalhei em lugar fechado. Agora me sinto livre, mesmo sem braço e é só me dar asas que eu voo.

O acidente visto hoje

Eu tive vários colegas que ficaram traumatizados e saíram da empresa. Porque a empresa não pensava em segurança, tanto é que eu sou o 4º acidentado.

Três meses antes do meu acidente um outro colaborador perdeu a mão, pois estava executando um procedimento de maneira errada. O engenheiro de segurança viu e não falou nada.

A empresa colocava quem era acidentado na portaria, e isso impactava as pessoas, ver logo na entrada empregados sem mãos, ficava mal para o marketing. Então tiraram de lá e escondiam em outro lugar.

Depois do acidente, a CIPA investigou e de 10 testes, 6 a máquina caiu. Essa máquina estava há 2 anos sem manutenção e trabalhava 24 horas por dia. Hoje eu vejo tudo que poderia ser diferente e atitudes que poderiam ter evitado essa tragédia”.

O que poderia ter evitado o acidente

1- Isolar a máquina com fita zebrada enquanto fazia a manutenção;
2- Ter feito a manutenção da máquina, estava há 2 anos sem manutenção e funcionava 24 horas por dia;
3- Ter mais comunicação entre os empregados, treinamentos, já que o outro funcionário mexeu na máquina enquanto eu estava no mesmo local;
4- Falta de noção de primeiros socorros. Eu mesmo tive que orientar os companheiros no momento do acidente.

 

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