Depoimento – Luiz Augusto Puech

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Depoimento – Luiz Augusto Puech Tenho 45 anos, nascido em São Paulo, capital. Tive uma infância maravilhosa que pude experimentar as delicias de subir em árvores e comer suas frutas direto do pé, nadar em rios, correr atrás de bois no pasto, montar cavalos, subir montanhas, mergulhar de alturas fantásticas, em fim, fui moleque de pé sujo de terra.

Fui piloto de bike-croos quando morei em Brasília e cheguei a ganhar uma medalha de prata em uma competição. Brinquei de pega-pega, cabra-cega, queimada, esconde-esconde. Subia em trepa-trepa, e adorava escorregador. Foram anos de ouro.Uma coisa que adorava também era pilotar motos. Ganhei a primeira aos 8 anos de idade, uma Grazziela verdinha, uma motinho que está em algum lugar da casa de minha mãe, guardada. Depois dela tive mais uma infinidade, desde motos de pista como uma Honda 450 com kit Mugen tornando-a uma 500 e motos de Trial e MotoCross, até chegar ao dia do meu acidente com uma Harley Davidson 883 Sposter aos 33 anos de idade. Uma pessoa, um homem sem carteira de motorista, em um carro roubado e na contra-mão me pegou de frente.O acidente se deu no dia seguinte que a comprei, ironia do destino. Foram 25 anos em cima de duas rodas, foram quase 30 anos de esporte, de muita molecagem e diversão. O único esporte o qual eu não praticava era o basquetebol.Minha vida se transformou naquela noite de segunda feira, dia 25 de março de 1995. Foram 10 anos de uma dor quase insuportável que sempre era combatida com remédios.Só fiz a amputação de minha perna em 2005, nas mãos do Dr. Marco Guedes por quem tenho uma profunda admiração e respeito (mais adiante falo dele).Meu avô era médico e foi um dos fundadores da Ortopedia no Brasil. Fundou o Pavilhão Fernandinho Simonsen da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e para lá fui levado na ocasião do acidente. Aliás, acidentes eram comuns, Já havia também passado pelas mãos do Dr. Renato Bonfim da AACD e outros inúmeros médicos que trataram de minhas estripulias.Quando dei entrada na Santa Casa, comunicaram ao Dr. Carvalho Pinto que era o chefe da ortopedia na época e havia sido aluno de meu avô, que deve ter dito: Neto do Puech não vai ficar sem perna – nas maiores das boas intenções.Reuniu sua melhor equipe que fez de tudo para reimplantar o membro que já estava perdido. Dr. Marcelo Mercadante foi meu ortopedista e amigo por todos estes anos e é até hoje. Ele teve paciência de Jó (como dizia meu saudoso pai), agüentou meus xingamentos e choros, alegrias e frustrações sempre com um sorriso confortador no rosto.Outro médico que tenho profundo apreço é o Dr. Luiz Antônio Demario, o Curitiba. Cirurgião Plástico que fez muito mais que plásticas em mim. Fez uma amizade que me traz sorrisos só de lembrar o nome dele.Usei o Ilizarov, usei de pinos e parafusos, fiz enxertos e um sem números de cirurgias e micro-cirurgias.Pelas mãos do Dr. Davi Uip fiz auto-vacina, fiquei internado por um mês inteiro somente para tomar antibióticos no hospital Oswaldo Cruz. Tudo isso contra minha vontade. Eu queria amputar minha perna, todo aquele sofrimento era muita areia pra meu caminhãozinho.Foram 10 anos indo a médicos, praticamente todo dia. Sempre havia algo a ser feito ou tentado.Procurei o Dr. Marco Guedes. Eu já havia estado em seu consultório no ano de 1997 e ele negou categoricamente a amputação. Eu tinha em mim uma perna, ela tinha movimento, eu sentia cócegas no pé, tinha uma flexão de 90º, mas não podia me agachar, ela não sustentava meu peso, os ossos não tinham as suas sustentações. Restou-me somente um tendão. Meus ossos corriam sobre eles mesmos, a articulação era uma conjunção de ossos sobrepostos e encostados uns aos outros, atados pelo músculo gêmeos que havia passado por uma rotação na intenção de proteger a fíbula que era produto de enxertos ósseos e havia ficado exposta na ocasião do acidente. A patela foi “reformada”, fora ligada por fios de aço e parafusos, e eu havia perdido um pedaço de meu fêmur, justamente um pedaço da cabeça, parte que é feita a junção com a fíbula e o perônio. Este fato ajudou a dar inicio à um valgo e, em pouco tempo meu caminhar estaria severamente prejudicado. O fato de ter somente um tendão, o externo da perna ajudava a provocar isto, pois sempre estava puxando um lado somente da perna e sofria toda a carga do corpo. As tendinites logo vieram e as dores eram insuportáveis.Por muito tempo tentei de tudo. Foram 10 anos de tentativas.Eu ficava com medo de marcar uma nova consulta com o Dr. Marco, em minha cabeça era ele que iria fazer a amputação. Eu não conhecia outro nome para realizar esta cirurgia, se ele negasse novamente eu não tinha certeza o que seria de mim. Tomei coragem em novembro de 2005 marquei a consulta.Ele havia mudado do Pacaembu para o bairro da Vila Madalena, a Vila que sempre me trouxe alegrias.A entrada no consultório, desta vez me deu um frio na espinha, havia amputados aguardando fisioterapia ou consulta, assim como eu e a partir daquele momento eu me vi como amputado. Aquela seria minha realidade. É, dá medo.A consulta foi breve e de certa forma, como eu imaginava. Acho que ele foi direto ao assunto para testar minha convicção, e acredito, viu que eu estava preparado para o que viria.

 

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A leitura de meu prontuário, um breve exame, uma vista em minhas radiografias e a pergunta: Que dia você quer?O prazo foi curto, dali uma semana ou pouco mais eu estaria amputado.Eu vinha conversando com algumas pessoas pela Internet sobre o assunto. O site Amputados Vencedores foi onde obtive um apoio que até hoje tento retribuir. Flávio Lucio Peralta, o mantenedor e idealizador do site foi uma das pessoas com quem mais contei. Me deu amparo, e trouxe palavras amigas. Me apresentou pessoas que puderam me nortear sobre minha “próxima vida”. Eu tinha medo sim, mas estava decidido, a vida que eu levava não me trazia felicidade.Uma das maiores preocupações que tive, talvez por fuga, a necessidade de ocupar a minha cabeça nos dias que antecediam a cirurgia era em o que fazer de minha perna, do pedaço que iria sair de meu corpo. Como tenho o desejo de ser cremado após minha morte, imaginei crema-la e juntar às cinzas, mas imaginei: qual a função disso se depois elas serão divididas e jogadas um tanto no Morumbi e outro tanto no mar de Ilhabela?

Outra ocupação era a de deixar meu carro já adaptado, eu iria sair do hospital dirigindo meu próprio carro, e assim foi feito. Sempre que chegava em casa, grudava no computador para conversar com meus amigos amputados, a vida e a força deles foi, sem dúvida alguma a coisa mais importante naquele momento.Dia 21 de novembro de 2005, amputado.Nova vida, nenhum ressentimento, nenhuma dúvida e nenhum arrependimento.Os dias que se seguiram foram difíceis. Logo de cara experimentei a famosa e inexplicável “dor fantasma”, mas tudo bem, eu iria superar isso.Fui embora para casa onde moro sozinho. Pior, um sobrado! Cheguei num domingo, delícia, repouso e atenção de todos. Segunda feira as pessoas tinha o que fazer, eu idem.Peguei meu carro e fui para a rua, fui resolver sobre minha carteira de motorista que, obviamente não era de amputado. Foi simples, logo marquei os exames médicos, psicotécnicos e prático.Quarta feira tinha jogo das eliminatórias da Copa do Mundo e cheguei atrasado, coloquei um prato de comida no micro-ondas e ao subir para meu quarto, com bandeja e de muletas cai na escada, isso me atrasou por meses a colocação da prótese e muitos xingamentos do Dr. Marco, claro, ele havia caprichado nos pontos da cirurgia, além da dor, a vergonha, onde já se viu…

Em agosto de 2006 comecei a cursar a Faculdade de Direito, aonde estou até hoje, quase no 4º ano. Por um tempo pratiquei esportes no Projeto Próximo Passo (mas achava que estava roubando vaga de quem queria praticar o esporte como forma de vida, e eu só queria por praticar mesmo, sem fundamento olímpico).Hoje sou uma pessoa comum; namoro, ando pela cidade quando estou trabalhando de terno e gravata sem ninguém perceber que sou deficiente físico, vou viajar, vou a cinemas, teatros, brinco com meus amigos que me tratam igual ao que me tratavam, nunca fui motivo de dó e de vergonha. Quando não estou com meu “uniforme” de trabalho, uso bermudas com minha prótese exposta, sem a maquiagem, acabamento, pois não tenho vergonha dela. “I am half machine”

Ajudo as pessoas que tiveram os medos que eu tive, me enveredo e milito pelos assuntos ligados à nós, deficientes, busco mais conhecimentos. Fiz as adaptações necessárias para ter uma vida mais confortável dentro de minha casa, facilitei minha forma de trabalhar.Minha alegria só não é maior porque vejo o desrespeito que as pessoas ditas “normais” tem pelas pessoas com necessidades especiais, o desprezo que nossos governantes tratam seus governados que precisam de um olhar mais cuidadoso.Quem me conhece sabe que eu sou a mesma pessoa de antes, continuo o mesmo chato, alegre, brincalhão e disposto a tudo para ser feliz.

larpuech@terra.com.br

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